14 mai, 2025
Durante a abertura do 25º Encontro Técnico da Fundação MT, especialistas debateram rentabilidade, juros e impactos geopolíticos
Crop AgroComunicação | Assessoria de
Imprensa Fundação MT
“A agricultura brasileira não tem um
problema econômico, mas sim financeiro. O produtor tem margens apertadas e
ainda enfrenta algo que chamo de ‘um segundo arrendamento’ nas propriedades.” A
análise foi feita por André Debastiani, sócio-diretor da Agroconsult, durante a
abertura do 25º Encontro Técnico de Soja, realizado pela Fundação de Apoio à
Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT), em Cuiabá. O evento segue
até 15 de maio e reúne profissionais da área técnica, empresários, produtores e
pesquisadores do setor. Com mediação da jornalista Kellen Severo, a abertura
contou ainda com a participação dos empresários e produtores rurais Odílio
Balbinotti Filho e Marcelo Vendrame, respectivamente, o ex e o atual presidente
do Conselho Curador da Fundação Mato Grosso.
André Debastiani deu destaque à
atual pressão sobre os preços da soja no mercado internacional, que tem entre
os principais motivos o excesso de produção do grão. “Estamos acumulando
estoque ano após ano e isso gera pressão em termos de preços internacionais. É
como o fundamento funciona, oferta e demanda. Quando a gente olha para o preço
da soja em Chicago, vemos pelo menos dois dólares por bushel a menos em relação
ao ano passado.”
O especialista reforçou ainda que o
preço final recebido pelo produtor depende não apenas do mercado internacional,
mas também de fatores como o câmbio, os prêmios de exportação e o custo
logístico. “Já vivemos momentos em que era mais fácil obter margens. Agora, com
preços deprimidos, é fundamental aumentar a eficiência das propriedades,
produzindo mais”, explicou Debastiani.
Outro ponto importante da discussão
foi o peso das taxas de juros nas operações agrícolas. “Se o produtor já tem
margens apertadas e ainda enfrenta algo que chamo de ‘um segundo arrendamento’
dentro das propriedades, fica bem mais difícil. Em muitos casos, os juros
equivalem a mais de 10 sacas por hectare. É uma realidade que exige cuidado na
hora de fazer as contas, sendo necessário calcular qual a margem para pagar o
serviço da dívida, lembrando que será uma dívida carregada por vários anos”,
alertou Debastiani.
Diante do cenário exposto, o
agricultor Odílio Balbinotti Filho reforçou a necessidade de buscar as máximas
produtividades das cultivares existentes, que oferecem um enorme potencial
produtivo para o setor da soja brasileira. “Há muitos casos de talhões produzindo
acima de 100 sacas por hectare. Se estamos produzindo cerca de 66, em média, é
porque estamos perdendo produção, deixando de produzir o que os materiais podem
atingir. Os resultados mostram que o potencial existe.”
Ainda com atenção à produtividade,
Marcelo Vendrame, atual presidente do Conselho Curador da Fundação Mato Grosso,
ressaltou a importância do uso correto das técnicas agrícolas nas propriedades.
“Temos que olhar para a produtividade, focar em produzir bem e nos preocupar
com gente. Corremos o risco de perder de quatro a cinco sacas por hectare por
técnicas aplicadas de forma errada no campo. Com isso, cada fazenda precisa de
uma estratégia ajustada à sua realidade e, nesse ponto, a Fundação tem capacidade
para oferecer suporte técnico para as equipes, com conhecimento estratégico
para a mão de obra.”
CHINA
x EUA: e as oportunidades para o Brasil
No debate geopolítico, Debastiani
também comentou os desdobramentos da tensão comercial entre China e Estados
Unidos. “Uma guerra comercial entre os dois países, embora negativa para a
economia global, pode gerar oportunidades para a soja brasileira. Problemas no
comércio entre esses dois grandes players abrem espaço para colocarmos mais
produtos no mercado internacional. Mesmo que haja acordo futuro, o atual
cenário tem favorecido o Brasil.”
O painel trouxe visões sobre
macrotendências para o futuro da soja. Debastiani destacou os primeiros
investimentos em pesquisa voltados à produção de biocombustíveis 100% à base de
óleos vegetais, ainda com custos altos, mas considerados um caminho para o
desenvolvimento de soluções mais viáveis.
Vendrame apontou a adaptação de
tecnologias e o uso de inteligência artificial no campo como parte da evolução
necessária da agricultura. Também defendeu mais investimentos em irrigação,
aproveitando a disponibilidade hídrica do Brasil.
Balbinotti reforçou o papel
estratégico da agroindústria para o futuro do setor em Mato Grosso. “Com o uso
de insumos de alta performance e inteligência artificial já presente nas
empresas, o Brasil tem capacidade de conquistar novos mercados. A agroindustrialização
vai nos levar a outro patamar. Mato Grosso tem potencial para ser o celeiro
mundial não só em produção de commodities, mas também em valor agregado, com
etanol, DDG e outros produtos industrializados.”
Programação
do Encontro Técnico de Soja segue até o dia 15 de maio
No formato híbrido, com
participantes de forma presencial e também virtual, o evento tem mais de 420
participantes e é voltado à apresentação dos resultados de pesquisa e soluções
técnicas aplicadas à produção de soja.
O diretor-presidente da Fundação MT,
Romão Viana, destacou que o Encontro Técnico de Soja é resultado do trabalho de
mais de 160 colaboradores da empresa. “A contribuição é uma parceria com os
produtores rurais, ombro a ombro. Chegamos a 25 edições de um encontro que foi
uma boa semente plantada e hoje dá frutos. Nosso time de pesquisadores está
trazendo informações acumuladas ao longo dos anos, com respostas aos desafios
da agricultura e orientações para os próximos 25 anos. Todo o conteúdo é
produzido com imparcialidade e credibilidade”, finalizou Viana.